As recentes ações do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) desencadearam um debate acirrado sobre a ética das táticas de fiscalização, especialmente quando perturbam os meios de subsistência dos trabalhadores imigrantes e exploram os espaços culturais que habitam. O incidente no El Tapatio, um restaurante mexicano de gerência familiar em Willmar, Minnesota, onde os agentes do ICE almoçaram antes de regressarem para deter três funcionários, sublinha uma tendência perturbadora: a utilização da hospitalidade como arma contra as comunidades que serve.
O padrão de aplicação
Este não é um caso isolado. Em Minnesota e em outros estados, o ICE intensificou a fiscalização, com relatos de invasões domiciliares, às vezes sem mandados adequados, e um clima crescente de medo entre os funcionários dos restaurantes. As ações da agência coincidiram com o aumento dos destacamentos federais – incluindo uma potencial mobilização de 1.500 soldados ordenada pelo antigo Presidente Trump – aumentando ainda mais as tensões.
Os proprietários de restaurantes, como Bruno nas Cidades Gêmeas, operam agora sob constante ansiedade. Muitos trancaram as portas durante o serviço, temendo entradas não anunciadas do ICE, e consultaram advogados para compreender os seus direitos durante potenciais ataques. A situação levou ao encerramento temporário de alguns estabelecimentos, pois os trabalhadores evitam o risco de deportação.
A crueldade do tempo
O momento do ataque a El Tapatio é particularmente chocante. Os agentes jantaram no restaurante, foram atendidos por funcionários assustados, mas receptivos, e voltaram horas depois para fazer prisões. Este acto foi amplamente condenado como uma traição às normas culturais, com alguns observadores a compará-lo a uma violação da hospitalidade sagrada. O historiador Patrick Wyman descreveu isso como “o tipo de merda que deixaria você completamente fora dos limites de qualquer sociedade antiga”, sugerindo que tal comportamento incorreria em maldições geracionais em culturas mais antigas.
Além dos restaurantes mexicanos
A questão vai além da culinária mexicana. Os trabalhadores imigrantes representam 36% dos proprietários de restaurantes e mais de 20% da força de trabalho do sector, tornando os restaurantes étnicos alvos fáceis para o ICE. Surgiram relatos de agentes entrando em estabelecimentos com armas em punho, como um incidente em um restaurante tailandês em St. Paul, onde um policial acusou os proprietários de “esconderem uma criança”.
O Dilema Moral
O incidente provocou um debate mais amplo sobre quem poderá desfrutar de produtos culturais como a comida mexicana se apoiarem as políticas de aplicação que ameaçam as comunidades que os criam. Alguns, como a podcaster Jennifer Welch, pediram a proibição de apoiadores de políticas agressivas de imigração de restaurantes étnicos.
No entanto, muitos proprietários, como Caro em Washington, D.C., acreditam que a exclusão é contraproducente. Ela argumenta que a hospitalidade contínua pode ser uma forma de resistência, permitindo o intercâmbio cultural e o potencial para mudar mentalidades. Apesar de ela própria ter perdido funcionários devido a ataques do ICE, ela continua empenhada em servir todos os clientes, mesmo aqueles que têm opiniões opostas.
O custo humano
As consequências para os trabalhadores são graves. Caro partilhou a história de um gestor de longa data que foi detido e mantido durante dias sem comida antes de se autodeportar para El Salvador, deixando para trás a sua família nos EUA. A sua história não é única, já que muitos funcionários enfrentam a escolha angustiante entre a detenção prolongada e o abandono das suas vidas na América.
A realidade é que as ações do ICE estão a criar um clima de medo e instabilidade nas comunidades imigrantes, forçando as empresas a adaptar-se enquanto os trabalhadores vivem sob a constante ameaça de separação das suas famílias e meios de subsistência. O incidente em El Tapatio é um lembrete claro de que a fiscalização da imigração não é apenas um processo burocrático; é uma tragédia humana que se desenrola em tempo real.
A escalada dos ataques do ICE colocou as táticas da agência sob intenso escrutínio, forçando as empresas e as comunidades a lidar com as implicações morais das políticas de aplicação que exploram normas culturais e perturbam vidas.






























